segunda-feira, 24 de março de 2008

Finkelstein e o Hezbollah

Israel tem de sofrer uma derrota
MEMRI TV PROJECT
Cientista Político Americano Norman Finkelstein
Future TV (Líbano)
20 de Janeiro de 2008
Finkelstein-Fiquei, claro, satisfeito por encontrar-me com pessoas do Hezbollah porque é um ponto de vista que raramente é escutado nos Estados Unidos e não tenho problemas em afirmar que quero expressar solidariedade com eles e não vou ser um cobarde ou hipócrita acerca disso. Não quero saber do Hezbollah como organização política. Não sei muito sobre as suas políticas e, seja como for é irrelevante, não vivo no Líbano. É uma escolha que os libaneses têm que fazer: quem é que querem escolher para líder, quem é que querem que os represente. Mas existe um princípio fundamental. As pessoas têm o direito de defender o seu país de ocupantes estrangeiros e as pessoas têm o direito de defender o seu país de invasores que o querem destruir. E essa para mim é uma questão básica, elementar e simples.
Os meus pais passaram pela II Guerra Mundial. Ora, o regime de Estaline não era propriamente uma cama de rosas. Era um regime implacável e brutal e muitas pessoas pereceram. Mas quem não apoiou a União Soviética quando eles derrotaram os Nazis? Quem não apoiou o Exército Vermelho? Em todos os países da Europa que foram ocupados - quem recebe todas as honras? A Resistência. A resistência comunista - foi brutal, foi implacável. Os comunistas não foram... Não era uma cama de rosas, mas respeitávamo-los. Respeitámo-los porque resistiram aos ocupantes estrangeiros do seu país. E se vou honrar os comunistas durante a II Guerra Mundial, embora provavelmente não me desse muito bem sob os seus regimes, e se os homenageio então tenho de homenagear o Hezbollah. Eles mostraram coragem, mostraram disciplina. Eu respeito isso.
Aprsentadora (em arábico)-Essa é uma descrição rigorosa da situação antes de 2000, mas após 2000 os israelitas retiraram para o Sul do Líbano. Houve uma divergência dentro do Líbano entre os intervenientes políticos libaneses quanto ao futuro das armas e quanto à resistência. Esta divergência sucedeu. Agora está a tomar partido. No entanto, afirma que está apenas visitando o Líbano, mas não vê as ramificações da guerra de Julho para o povo.
Finkelstein-Ouça, se quer fechar os olhos e acreditar que estava tudo terminado em Maio de 2000, pode fazê-lo. Pode fazer esse jogo. Mas a realidade era - e toda a gente o percebeu - que a atitude israelita era:
-Vamos esmagar o Hezbollah.
E começaram a planear uma nova guerra logo após terem sido forçados a abandonar em 2000. Encontraram a sua desculpa, o seu pretexto, em Julho de 2006 ,mas não existem dúvidas entre pessoas racionais que Israel não ia deixar passar em claro a vitória do Hezbollah, estavam determinados a dar uma lição...

Apresentadora (em arábico)-A guerra poderia ter sido evitada.
Finkelstein-Não, não poderia ter sido evitada. Não há hipótese de os Estados Unidos e Israel tolerarem algum tipo de resistência no mundo árabe. Se quiser fazer de conta que pode ser evitada, pode entrar nesse jogo. Mas pessoas sérias, com ideias esclarecidas, sabiam que haveria guerra mais cedo ou mais tarde.
(corte de montagem)
Finkelstein-Pensa que não vai voltar a haver outra guerra? Pensa que Israel vai permitir aquela derrota em Julho de 2006? Quer fingir que é o Hezbollah que está a causar problemas? Não, haverá outra guerra, e a destruição será dez vezes maior - talvez até mais - do que em Julho de 2006, porque Israel está determinado com os Estados Unidos, a pôr os árabes no seu lugar e a mantê-los no seu lugar.
Agora, como posso não respeitar aqueles que dizem não a isso. Sabe, durante a Guerra Civil espanhola houve uma mulher famosa - chamavam-lhe a "La Pasionaria" - Dolores Ibárruri, da República Espanhola. E ficou célebre ela ter dito: "É melhor morrer de pé do que voltar rastejando de joelhos."
Apresentadora (em arábico)-Mas isso diz respeito ao povo libanês no seu todo.
Finkelstein-Concordo completamente. Não estou a dizer-vos o que devem fazer das vossas vidas. E se preferirem viver rastejando, posso respeitar isso. Posso respeitar isso. As pessoas querem viver. Como posso negar-vos esse direito? Mas então, como é que posso não respeitar aqueles que preferem morrer de pé? Como é que poderei não respeitar isso?
(corte de montagem)
Finkelstein-Israel e os Estados Unidos estão a atacar, porque não irão permitir qualquer resistência militar ao seu controlo da região. Esse é que é o problema. Se o Hezbollah depusesse as suas armas, e dissesse: "Faremos o que os americanos disserem," não haveria uma guerra - isso é verdade - mas também seriam os escravos dos americanos. Tenho que também respeitar aqueles que se recusam a ser escravos.
Apresentadora (em arábico)-Não há outra forma que não seja a resistência militar?
Finkelstein-Não acredito que haja outra maneira. Oxalá houvesse outra maneira. Quem quer a guerra? Quem quer a destruição? Até Hitler não queria a guerra. Preferiria ter alcançado os seus fins pacificamente, se pudesse. Por isso não estou a afirmar que a desejo. Mas honestamente não vejo outra forma, a não ser que escolham ser escravos deles - e muitas pessoas aqui escolheram isso. Não posso dizer... Eu posso compreender, vocês querem viver. Não posso realmente dizer que o respeito. Vejam, tantos mortos, tanta destruição... Antes de os mortos serem ainda enterrados, antes de os edifícios serem reconstruídos.
As pessoas que são responsáveis por tudo isso - não podem esperar para lhes darem as boas vindas. Não podem esperar para estenderem-lhes a passadeira vermelha. Não consigo respeitar isso. Quanto a isso respeito muito mais os judeus. Gosto da atitude judia. Sabe qual é a atitude dos judeus? Nunca perdoar. Nunca esquecer. Porquê estenderem-lhes a passadeira vermelha menos de dois anos após todo o vosso país ter sido destruído por causa deles?
A Secretária de Estado disse que foram as dores de parto de um novo Médio Oriente. É uma declaração de uma doida varrida. Só uma doida compararia o nascimento de uma criança com a destruição de um país, e contudo, existem pessoas aqui que estão ansiosas por lhe darem as boas vindas. Estão a tentar imaginar o que os americanos estarão a pensar. Não podem esperar pelos seus banquetes. Como pode alguém respeitar isso? Respeito os judeus mil vezes mais. Nunca perdoar e nunca esquecer. Toda a morte e toda a destruição - e estão ansiosos por lhe darem as boas vindas.
Apresentadora-Norman ...
Finkelstein-É revoltante! Que raio interessa se o Bush virá?
Apresentadora (em arábico)-Mas diz que vem aí outra guerra.
Finkelstein-Deveriam tê-lo declarado persona non grata. Ele não é bem vindo aqui. Ele destruiu o vosso país. Ele foi responsável pela guerra. Sabe muito bem que aquela resolução poderia ter passado três semanas antes. Ele destrói o vosso país e estão ansiosos por o irem cumprimentar. Não têm respeito próprio. Como podem esperar que outras pessoas respeitem os árabes se não mostrarem respeito por vocês próprios.
(corte de montagem)
Finkelstein-Se o povo libanês votar esmagadoramente no sentido de deixar que os americanos e israelitas levem a melhor julgo que tenho que aceitar isso. Posso aceitar isso. E julgo que não tenho o direito de dizer que não devam fazer essa escolha.
Ouça, na Europa ocupada pelos Nazis, tem que se recordar, a maior parte da população fez a escolha de viver sob os Nazis. Toda esta conversa sobre a Resistência francesa é uma palhaçada - nunca aconteceu. A Resistência francesa... Cerca de 20% da população lia o jornal da Resistência. Havia talvez 10% dos franceses que resistiam. O resto dizia: "Não resistam". Porque os Nazis eram impiedosos. Se resistirem - quatrocentos serão mortos por cada soldado que for morto. Era assim o modo de agir dos Nazis. Por isso a maior parte dos franceses disseram como vocês: "Queremos viver"."Não resistam". Mas agora, retrospectivamente, tenho que vos perguntar: Quem é que homenageamos? Homenageamos aqueles que diziam: "Deixem-nos viver", ou homenageamos aqueles que diziam "Vamos resistir".
(corte de montagem)
Finkelstein-Os líderes vêm em último lugar. Haverá um líder que subirá ao poder em Israel, que estará disposto a fazer as concessões depois de as condições terem sido criadas - nomeadamente, Israel tem que sofrer uma derrota.

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